quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

ESQUIÇO

Álvaro Siza Vieira - desenho


Há muito tempo atrás um atelier de arquitectura possuía um conjunto de objectos, materiais e peças de mobiliário que o dotavam de uma ambiência particular. Fazia ainda parte desta ambiência o modo como as pessoas se apropriavam do espaço, o modo de partilhar o conhecimento e a informação, as sensações e emoções associadas ao acto criativo.
No estirador, alto, de madeira, passávamos horas intermináveis, massacrando os lombares até ao limite.
Com os instrumentos havia uma relação muito física, táctil, cuidando sempre da posição em que se encontravam ou mais propriamente, cuidando sempre de os colocar na posição correctamente equilibrada para suporte do traço.
O esquadro e o compasso bastavam para desencadear uma pluralidade de imagens que a imaginação arduamente tinha de descodificar até encontrar aquele momento onde tudo se compunha sob a calma da harmonia da composição.
A lapiseira ( Caran D’ Ache de preferência ) constituía o veículo subtil que ligava o pensamento ao traço que, umas vezes fácil, outras árduo, ia enchendo o papel de esquiço com linhas e mais linhas, algumas eliminadas pela borracha branca ( Rotring ) sempre à mão.
Pensamento, composição, traço, esquiço…arduamente até ao desenho final.
Bons tempos …

2 comentários:

ssebastiao disse...

Que bem que entendo o que escreves... que saudades desse ambiente repleto de escórias de borracha, grafite e lamelas de vegetal raspado, que se entranhavam por todo o lado. Na "cozinha", a luz azul e o cheiro intenso: a amoníaco.
Olha! sempre que posso,volto a traçar dessa forma terna e experimentativa - tem outro gosto, outro fulgor!

João Pedroso disse...

Almeida, há muito que não levamos aquelas " pancadas " com o amoníaco que, quimicamente, começava lentamente a fazer emergir os traços no papel de cópia, amarelo, que não podia apanhar luz directa. Ainda me lembro de um antigo móvel, de madeira, onde na base se colocava o inalável líquido e as cópias, enroladas, eram para lá atiradas o tempo certo para não saírem completamente queimadas.
Depois vinha o corte e a dobragem, fácil para quem tinha guilhotina...muito tramado era quando a malta se enganava e de vez enquando lá ia uma cópia " pró galheiro ".
Outros tempos...